terça-feira, 28 de julho de 2009

Cuba manifesta gratidão a Angola


Cubanos e amigos do povo da Ilha em todo mundo celebraram, ontem, o 56º aniversário do assalto ao Quartel-general de Moncada em Santiago de Cuba, e ao Quartel de Cespedes. Uma data de insubstituível valor histórico, não apenas para o país de Fidel, agora sob liderança de Raul Castro Ruz, mas para todo o mundo, como nos diz Emiliano Manresa Porto, primeiro secretário da embaixada de Cuba em Angola.
Em entrevista ao Jornal de Angola, o diplomata apresenta as razões que fazem do 26 de Julho de 1953 uma data sempre actual. Recentemente, o Presidente Raul Castro visitou pela segunda vez Angola, em seis meses, um facto político recente que, sem precisar de grande esforço, é também consequência do feito protagonizado por Fidel, Raul e outros jovens cubanos de então, que diante da falta de alternativas ao regime ditatorial de Fulgêncio Baptista, resolveu invadir o quartel-general de Moncada, em Santiago de Cuba, e Cespedes.
“Do ponto de vista militar aquele heróico gesto fracassou, mas foi precisamente este facto que determinou o triunfo da revolução no dia 1 de Janeiro de 1959, pois, entre outras coisas, não se verificou o factor surpresa, tal como se pretendia, e tal levou a que Fidel, Raul, e outros jovens fossem para a prisão”, conta o diplomata.
Ao falar do golpe ao regime de Fulgêncio Baptista, precisamente na data em que completaria o seu centenário, Emiliano Manresa Porto não resiste à tentação de recordar o julgamento de Fidel Castro. “Ao ser acusado de assalto ao quartel, diante do Tribunal de Excepção de Santiago de Cuba, Fidel, que era advogado, fez a sua própria defesa, apresentando um discurso que ficou conhecido como ‘a história me absolverá’”, afirma o diplomada.
Os ideais de liberdade plasmados no discurso de Fidel converteram-se num programa político seguido pela maioria do povo cubano. “Este programa político e o gesto heróico daqueles jovens obrigou o tirano Fulgêncio Baptista a amnistiar aqueles jovens que partiram para o México e organizaram o seu regresso a Cuba”.
Foi nesta altura que Fidel Castro conheceu Ernesto Rafael Guevara de la Serna, um jovem médico de nacionalidade argentina, que mais tarde viria a tornar-se no mito “Ernesto Che Guevara”. Os guerrilheiros comandados por Fidel Castro instalaram-se na região da Sierra Maestra, onde desenvolveram combates que viriam a determinar o triunfo da revolução no dia 1 de Janeiro de 1959.
“Com o triunfo revolucionário se desenvolveram os distintos programas, como a campanha de alfabetização em 1961, a reforma agrária com base na qual se reverteu a propriedade da terra aos camponeses, e outras importantes medidas de carácter revolucionário em benefício do povo e a libertação dos povos oprimidos no mundo”, conta Manresa Porto.

A reacção americana

O triunfo da revolução cubana representa o fim da opressão ao povo cubano e a queda do regime ditatorial de Fulgêncio Baptista, um acontecimento que mereceu a solidariedade de muitas nações, mas que foi “desaprovada” pelos Estados Unidos da América. “Desde o primeiro momento do triunfo revolucionário, o Governo dos EUA começou a aplicar medidas de agressão ao povo cubano para impedir o avanço do processo revolucionário”, afirma o diplomata cubano.
Essas medidas a que se refere Manresa Porto viriam a desembocar no bloqueio económico decretado pela Administração da Casa Branca no dia 19 de Outubro de 1960. “É um bloqueio cruel e desumano que persiste há já quase 50 anos, que impede o normal desenvolvimento das relações económicas e comerciais de Cuba, não apenas com os EUA, mas também com outros países, aos quais o governo norte-americano aplica extraterritorialmente as suas leis, afectando gravemente o desenvolvimento da economia cubana”, acusa o diplomata.

Direito de autodefesa

A coisa de 10 anos, Cuba bate-se pela libertação de cinco cidadãos seus que se encontram presos em território norte-americano acusados de espionagem. Um tema que mereceu também a reflexão de Manresa Porto na conversa com o Jornal de Angola: “a administração dos EUA permite que grupos terroristas de origem cubana levem a cabo actos de sabotagem, atentados contra os principais dirigentes da revolução, introduzem vírus, e protagonizam outras acções que afectam não só a economia do país, mas também a segurança e saúde da população cubana”, afirma.
Os prejuízos provocados por estes grupos de cubanos a partir de células no exterior, e o risco que os mesmos representam para a segurança do país, levaram a que o Governo cubano levasse a cabo uma série de acções no sentido de desarticular tais células, como conta o primeiro secretário da embaixada de Cuba: “A revolução cubana teve de defender-se para detectar os planos destas organizações terroristas, conseguindo penetrar dentro destes grupos de origem cubana como medida de autodefesa a favor dos interesses do povo cubano”.

Cinco heróis cubanos
na América


Emiliano Manresa Porto afirma que os resultados da acção contra as células terroristas foram positivos, uma vez que as infiltrações permitiram frustrar vários planos contra interesses do Estado cubano. Entretanto, essa acção sofreu um revês quando cinco elementos enviados por Havana acabaram por ser denunciados e presos acusados de espionagem. “Em momento nenhum esses jovens agiram contra os Estados Unidos da América. Esses cinco jovens cubanos foram submetidos a injustas medidas de prisão durante mais de 10 anos, numa situação que viola as próprias leis e procedimentos dos EUA, como também viola as normas internacionais, incluindo direitos humanos”, afirma o diplomata, sublinhando que três dos cubanos combateram e defenderam a independência e a integridade do território angolano contra o regime do Apartheid.

A solidariedade
inquebrantável de Angola


O 26 de Julho de 1953 é uma data que se faz presente em todos os momentos da vida do povo cubano e também dos seus amigos. Uma data que permite perceber a complexidade das relações entre Cuba e os Estados Unidos da América, mas também a profundidade da aliança entre a ilha e Angola, daí que Emiliano Manresa Porto aproveita a passagem do aniversário do assalto ao quartel-general Moncada para “agradecer ao povo angolano pela simpatia e carinho que tem manifestado para com Cuba”.
Em várias ocasiões o Chefe de Estado José Eduardo dos Santos manifestou a sua solidariedade e do povo angolano para com a causa cubana e pediu o fim do bloqueio económico imposto pelos EUA, considerando-o “absurdo e anacrónico”.
“Angola manifestou a sua disposição de permanecer junto do povo cubano nos momentos difíceis como aquando do furacão que assolou Cuba, no ano passado, mas também se solidarizou na luta contra o bloqueio, denunciando junto aos demais povos do mundo, na assembleia geral das Nações Unidas e noutros fóruns. E Cuba tem grande reconhecimento por isso”, afirma o diplomata, referindo-se a outras esferas de colaboração, nomeadamente cultural, científica e económica.

Administração Obama

Desde o mês de Janeiro que a Casa Branca tem um novo inquilino. O presidente Barack Obama tem demonstrado interesse em manter contactos ao mais alto nível com Cuba, algo que para muitos analistas, “representa um passo importante, mas insuficiente para corresponder às expectativas de Havana de ver, um dia, levantado o bloqueio económico”.
“Entretanto”, diz Emiliano Manresa Porto, “Cuba já expressou o seu respeito para com o povo dos EUA e sua disposição para conversar com os governantes americanos sobre temas de interesse bilateral, com base no princípio da igualdade e respeito da soberania de Cuba”.
O levantamento do bloqueio económico é um assunto cada vez mais adiado, segundo analistas, que se mostram cépticos quanto a possibilidade disto vir a acontecer, tendo em conta o que consideram “sinais de indisposição de Havana em fazer concessões”, e a “postura implacável dos congressistas republicanos para com o regime cubano”.

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