quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Conflito no Congo ameaça criar nova crise regional



Um conflito em larga escala entre o exército congolês e um general renegado está arrastando o país de volta para a guerra, ameaçando enfraquecer a democracia recém instaurada e detonar um conflito regional numa proporção que não era vista há anos.
A batalha entre tropas do governo do Congo e o general rebelde Laurent Nkunda traz à tona muitas das mesmas questões que causaram a Guerra Civil do Congo, que supostamente terminou em 2003.
Foi a guerra africana mais mortífera da era moderna, impulsionada por tensões étnicas entre hutus e tutsis, que levou ao genocídio na vizinha Ruanda, e também pela luta pelo controle da rica reserva mineral e terras férteis da nação, especialmente na região verde conhecida como província de Kivu do Norte.
Nenhum desses problemas parece estar inteiramente resolvido e a violência recente que surgiu já expulsou 425 mil pessoas de suas casas só no ano passado, incluindo os residentes de uma cidade estratégica de província.
Na última terça-feira (11), eles saíram da cidade formando um verdadeiro rio de desabrigados em sofrimento, levando trouxas enroladas na cabeça e com crianças pequenas ao lado.
Muitos estavam fugindo pela segunda vez em duas semanas, enquanto as forças de Nkunda dirigiam tropas para cidades que haviam tomado dias antes e ameaçavam tomar Sake também. Nkunda é de etnia tutsi e fez um voto de proteger a todo custo os tutsis congoleses das milícias hutu de Ruanda. Sua vantagem foi evitada por pouco pelas forças de paz das nações Unidas, que chegaram na última terça-feira para ocupar a cidade enquanto o exército congolês fugia.
O conflito teve início apenas um ano depois das nações ocidentais terem ajudado a organizar uma eleição histórica que o produziu o primeiro governo escolhido democraticamente do Congo.
A violência também está aumentando, apesar de anos de intervenções diplomáticas e militares por parte das Nações Unidas, da União Européia e dos EUA para estancar a maré de sangue e criar pela primeira vez, desde que se tornou independente da Bélgica em 1960, um Congo estável e próspero. Após anos sendo subestimada em favor de crises em Darfur, Somália e outros países, o Congo mais uma vez subiu até o topo das prioridades americanas e européias na África.

Na semana passada, a secretária de estado norte-americana, Condoleezza Rice encontrou se com líderes da região em um encontro que teve foco considerável no Congo. Outra reunião de diplomatas de alto escalão está marcada para este final de semana.
A luta recente deu origem a uma catástrofe de proporção descabida até mesmo para o Congo, onde alguns pesquisadores afirmam que 4 milhões de pessoas morreram, principalmente de doenças e de fome, desde que a guerra civil começou em 1996. “A situação agora é a pior que já tivemos” desde o fim da guerra, declarou Patrick Lavand'homme, autoridade assistencial sênior das Nações Unidas em Goma. “E vai ficar muito, muito pior”.
A força civil do Congo tem raízes no genocídio em Ruanda. Os responsáveis pela matança de 800 mil tutsi e hutus moderados fugiram, juntamente com 1 milhão de refugiados Hutu de Ruanda, atravessando a fronteira com o Congo em 1994.
O governo tutsi no Ruanda patrocinou um grupo rebelde no Congo em 1996.
Mobutu Sese Seko, líder de longa data do país, presidiu sobre uma nação cada vez menos estável, apodrecida por seu domínio corrupto e autocrático.
Países vizinhos como Angola e Uganda, percebendo uma chance de se beneficiar das riquezas minerais do Congo, também se juntaram aos esforços.
Em 1997, Mobutu foi forçado ao exílio e o líder rebelde Laurent D. Kabila se tornou o presidente.
Um ano depois, ele se dissociou de seus patrocinadores do Ruanda, que passaram a patrocinar outra rebelião, dessa vez contra Kabila.
Isso iria detonar a guerra civil, que fez com que a região inteira fosse envolvida em conflito uma vez que os países vizinhos apoiavam lados diferentes.
A crise atual arrisca atrair os vizinhos do Congo, especialmente Ruanda, Uganda e Burundi – uma possibilidade que as autoridades ocidentais consideram particularmente preocupante.


Em Goma, as clínicas estão lotadas de crianças esquálidas tão mal nutridas que precisam ser alimentadas por soro. Fora da cidade, campos improvisados pipocaram, e mais de 800 mil pessoas estão desabrigadas pela região.
Epidemias de cólera, resultantes da água suja que inunda os campos fétidos, afetam milhares de pessoas.
Na estrada entre Sake e Goma, o panorama de miséria é visível quilómetro após quilómetro, enquanto as famílias perambulam em busca de refúgio. Muitos dormem a céu aberto na estrada, tremendo nas noites gélidas. “Fugindo,fugindo, estamos sempre fugindo”, disse Simwirayi Byenda, que saiu de Sake com seus dois filhos na terça-feira. “Sempre são os civis que sofrem. Não temos para onde ir.”
Campos lotados se esforçaram para absorver os recém-chegados – trabalhadores assistenciais em um dos campos declararam que os mais recentes refugiados só receberiam algum alimento na segunda-feira.
“Mesmo na segunda ainda acho que não teremos material para abrigo nem água e comida suficientes”, declarou David Nthengwe, um porta-voz da agência de refugiados das Nações Unidas. “Precisaremos com urgência apenas absorver o influxo atual de refugiados.”

A mudança desfavorável para o governo foi impressionante. No último sábado, o Coronel Delphin K. Kahimbi vice comandante de uma vasta força que tenta derrotar Nkunda afirmou que muitos rebeldes foram mortos e que a vitória está próxima. “Estamos progredindo bem e nosso exército é poderoso”, declarou ele, gritando sobre o som de foguetes explodindo.
Com o sucesso da ofensiva do exército, autoridades ligadas ao movimento pelos direitos humanos e trabalhadores assistenciais ficaram preocupados com a possibilidade de o exército congolês passar por cidades rebeldes povoadas por civis tutsis desabrigados, podendo causar mais violência contra um grupo étnico que já sofreu um genocídio.
Mas essas preocupações foram rapidamente suplantadas por preocupações de que o exército do Congo vá falhar completamente. Isso poderia ser um fator fortemente desestabilizador porque Joseph Kabila, o filho do líder rebelde que se tornou o primeiro presidente democraticamente eleito do Congo no ano passado, já está perdendo popularidade devido à instabilidade crescente.
O exército congolês já investiu com todo seu poder na luta contra Nkunda. Cerca de 20 mil soldados foram enviados para a região, juntamente com artilharia pesada e um par de helicópteros de ataque. Ainda assim, o exército, composto de uma mistura de antigas milícias integradas para formar a força nacional ao fim da guerra, teve que lutar arduamente para conquistar até a menor das vitórias sobre as forças de Nkunda.
Na semana passada, foram necessários três dias de bombardeio pesado até que o governo conseguisse retomar uma cidade numa encruzilhada que havia dado às forças de Nkunda controle sobre o acesso a ricas áreas de mineração.
A recaptura da cidade foi saudada como uma enorme vitória, mas os rebeldes a recuperaram em apenas algumas horas de combate esta semana.
Na terça-feira, Kahimbi reconheceu que suas tropas haviam sofrido uma séria derrota, declarando no front que “na guerra, você vence algumas e perde outras, mas nós iremos vencer”. Soldados que há uma semana pareciam disciplinados e de moral elevado rapidamente degeneraram em bêbados desordeiros enquanto faziam uma retirada apressada de Kingi, seguida por centenas de famílias buscando se proteger dos combates e agindo como predadores para apreender qualquer tipo de alimento. “Eu tinha nove bodes quando parti, agora só tenho um”, disse Kimomote Ndezirizaza, que fugiu de Kingi com sua esposa e nove filhos.
“Os soldados nos atormentam e roubam nossas propriedades. Nós só queremos um lugar seguro para nos esconder”.
Com seu exército em retirada, Kabila foi deixado com poucas opções. Tentativas de negociação com Nkunda nos últimos anos, incluindo uma experiência de redistribuir seus homens em brigadas de exército falhou em agosto, levando a uma nova rodada de lutas. Depois que o acordo de cessar fogo falhou em outubro, o governo congolês se comprometeu a remover Nkunda à força. “Kinshasa está em pânico” declarou uma autoridade militar sênior das Nações Unidas, referindo-se à capital da nação. “Eles apostaram tudo na solução militar e foram humilhados”. Mas reabrir as negociações com Nkunda é também uma proposta perigosa para Kabila. Outros grupos étnicos e milícias regionais passaram por processos de integração voluntária que requeriam que fossem realocadas para regiões onde ainda não haviam lutado, uma jogada que fez com que desistissem do controle de lucrativas áreas de mineração.
Eles ficariam enfurecidos pelo tratamento especial às forças comandadas pró-Nkunda, que vêm como outra milícia étnica. Nkunda exige que seus homens tenham permissão para permanecer em Kivu do Norte para que suas famílias possam ficar protegidas. Ele também exige o desmantelamento e deportação da milícia hutu de Ruanda liderada por alguns dos responsáveis pelo genocídio em Ruanda ocorrido em 1994.
O governo do Congo propôs um novo plano para dissolver a milícia a ser iniciado em março, mas as forças de Nkunda insistiram que a milícia precisa ser desarmada primeiro. Os críticos de Nkunda, que parecem incluir a vasta maioria de pessoas no Norte de Kiviu, o governo congolês e as Nações Unidas, argumentam que ele é um senhor da guerra que busca proteger poderosos interesses políticos e financeiros e está simplesmente utilizando a motivos étnicos como pretexto.
No passado, o exército congolês confiou em milícias étnicas para ajudar a lutar contra seus inimigos e também cooperou com a milícia hutu do Ruanda, agora conhecida como FDLR, na luta contra as forças de Nkunda, de acordo com ex e atuais integrantes da milícia e ativistas pelos direitos humanos.
A perspectiva dessas milícias hutu de Ruanda virem a lutar contra os tutsis congoleses arrisca provocar o governo tutsi no Ruanda, que tem pressionado para desmantelar a milícias desde 1994, para que elas mais uma vez invadam o Congo, como fez diversas vezes na década passada.
Diplomatas seniores e oficiais auxiliares declararam que o Ruanda até agora pediu contenção.
O Conselho de Segurança da ONU votará este mês sobre a renovação do mandato da força de manutenção de paz local, conhecida como Monuc.

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