segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Investimentos da Sonangol


Lisboa - 1 . Os volumosos investimentos efectuados pela Sonangol na aquisição de participações accionistas na Galp e no Millenium BCP foram aparentemente ditados por uma “lógica económica e financeira” (segurança e retorno), mas obedeceram também a critérios supletivos – assim apresentados numa análise sobre o assunto: - Resolver/atenuar problemas de excesso de liquidez decorrentes da alta do petróleo e avolumados pela escassa capacidade de absorção da economia interna. - Conferir ou elevar o prestígio externo à companhia. - Expandir ou gerar influências em sectores influentes da sociedade portuguesa; projectar internacionalmente tais influências - Criar ambiente propício ao investimento privado angolano – em Portugal e em países como a Espanha.
Os excedentes de liquidez gerados pela acumulação constante das receitas do petróleo estavam aplicados em fundos internacionais de pensões ou convertidos em depósitos em contas offshore. Considerou-se mais conveniente, por razões de segurança e rentabilidade, investir em activos empresariais. A Sonangol controla e gere as receitas petrolíferas – excepto as de natureza fiscal. Esta é uma das suas vastas funções – todas efectuadas em “estreita articulação” com o principal centro do poder, o PR, ou por instrução do mesmo. A modalidade mais corrente no passado foi a de manter os dinheiros em contas offshore. A elevação da respeitabilidade da companhia que se conjectura que a Sonangol visou com a sua entrada na Galp é associada a cálculos como o de melhorar a sua reputação (não divulga contas), amortecendo assim reservas e pressões internacionais a que o seu estatuto e o seu modelo de gestão dão azo.
A Sonangol é notoriamente o principal instrumento da política do regime do MPLA, um papel favorecido pelo controlo exercido sobre a mesma pela superestrutura de poder e pela sua gestão concentralizada. As negociações com o FMI nunca alcançaram êxito devido a exigências no sentido de racionalizar o vasto estatuto da companhia e sua gestão. Uma das reservas do FMI foi sempre a competência da Sonangol como concessionária dos recursos petrolíferos nacionais – uma atribuição própria de uma agência do Estado, dotada de autonomia. A maior respeitabilidade que a Sonangol busca, cria um clima favorável a reformas no sector petrolífero, mais aparentes e menos autênticas A Sonangol também estimou que os seus negócios em Portugal teriam projecção mediática suficiente (parte da qual repercutível na Europa), não só para facilitar a aquisição de prestígio, como para ajudar a criar um ambiente interno propiciador de investimentos, mais recatados, da elite angolana – que estão em curso.
A imprensa portuguesa presta atenção constante ao assunto dos negócios da Sonangol no mercado doméstico – em geral apresentados como investimento público ou de um fundo soberano. É mais esporádica a atenção prestada a operações de investimento privado da elite angolana, que privilegia os sectores imobiliário e fundiário.
2 . A política de investimentos da Sonangol em Portugal também foi encorajada por circunstâncias adicionais, entre as quais avultam as seguintes: - A abertura existente em Portugal e na sociedade portuguesa relativamente a Angola; os negócios e os interesses em geral constituem o factor determinante de tal abertura – que se manifesta igualmente no plano político. - A segurança que o mercado português oferece como destino de investimento – uma vantagem decorrente das influências de que a elite e a classe média angolana dispõem em Portugal; não obstante, Angola propôs e Portugal aceitou concluir um acordo de protecção mútua de investimentos. - O papel âncora que podem ter investimentos com a grandeza e a natureza dos efectuados na Galp e no Millenium BCP em relação ao mercado em geral. - Uma maior confiança na não ocorrência de escrutínios políticos ou mediáticos no que concerne a aspectos como a natureza fundos aplicados (vantagem decorrente de influências de que dispõe). - A ajustada dimensão da Galp às capacidades financeiras da Sonangol; atractivos como a presença da Galp no mercado ibérico de distribuição, a sua capacidade de refinação (existente e potencial) e os seus interesses no mercado da produção petrolífera no Brasil.
Fonte: Africa Monitor

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